Gap de eficiência: a doença silenciosa que está infectando empresas brasileiras

Um termo muito conhecido no mercado de trabalho é a produtividade. A cada dia exigimos, ou somos exigidos, maior eficiência produtiva. Mas o que, de fato, significa produtividade?

Podemos traduzir o termo como a eficiência com que recursos como tempo, dinheiro e esforço são transformados em resultados,seja produtos ou serviços.

Basicamente, como conseguimos gerar mais valor sem aumentar o tempo dedicado à uma tarefa ou rotina.

Por mais que a fama desse termo nos induz a crer que estamos, de fato, mais produtivos, a realidade é completamente oposta à fama da palavra.

No Brasil, os níveis de produtividade das empresas são extremamente baixos. Segundo o Observatório da Produtividade do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), de 2023 a 2024, o crescimento do nível de produtividade subiu apenas 0,1%, uma marca expressivamente baixa diante das mais de 24 milhões de empresas ativas no país.

Nos últimos 40 anos, ainda de acordo com o Observatório de Produtividade do FGV IBRE, a taxa média de crescimento da produtividade do trabalhador brasileiro foi de apenas 0,6% ao ano. Uma das mais baixas do mundo.

E por que isso acontece?

Temos alguns fatores principais que geram esse resultado.

  1. O “Efeito Contratação” – O crescimento do PIB nos últimos anos foi impulsionado pelo aumento da ocupação (mais pessoas trabalhando), e não pelo ganho de eficiência individual. Isso só indicou que o país colocou mais gente para trabalhar e não fazendo cada trabalhador produzir mais.
  2. O “Fator Humano” – O trabalhador brasileiro leva, em média, uma hora para produzir o que um americano produz em 15 minutos, segundo dados do Conference Board. Sem programas de capacitação contínua, o profissional fica limitado a processos obsoletos.

Em resumo, o Brasil está crescendo em cansaço, com mais horas e pessoas trabalhando, e não em inteligência, com avanço de processos e capacitação dos profissionais.

A partir desse crescimento exaustivo, acabamos fadados a entrar em um Gap de eficiência, que é a distância entre o que uma empresa poderia produzir com os recursos que tem e o que ela realmente entrega. 

Mão de obra

Para adicionar mais uma camada de complexidade à equação de produtividade, a nossa mão de obra é considerada uma das mais caras do mundo. Pagamos uma quantidade alta de encargos por um resultado produtivo baixo.

Entramos em um ciclo vicioso em que a empresa não produz bem, não melhora suas margens de lucro, não sobra para investimento em funcionários que, por sua vez, continuam menos eficientes.

Quebrando ciclos

Como vimos, a falta de produtividade é um problema nacional. Substituir um colaborador na esperança de que um novo integrante seja mais eficiente é um risco desnecessário.

Além disso, exigir uma carga horária de trabalho maior não soluciona a produtividade do time, já que aumentaremos um fator fundamental na equação, que é o tempo dedicado.

Capacitar as pessoas é o caminho certo.

Segundo a Harvard Business Review, empresas que focam em fechar o gap de competências internas, através da capacitação de colaboradores, têm um desempenho financeiro 30% superior ao dos concorrentes.

Parece fácil, é verdade. Mas a realidade é bem diferente, ainda mais quando comparamos os contextos de grandes e pequenas empresas.

Fosso de produtividade

A disparidade entre o investimento em treinamento de grandes e pequenas empresas no Brasil é enorme, criando o que economistas chamam de “fosso de produtividade”. 

Aqui estão as principais diferenças, baseadas em dados do Panorama do T&D no Brasil (ABTD) e do Sebrae: 

  1. Grandes Empresas: Costumam investir cerca de R$2.500 por colaborador ao ano, além de possuírem departamentos de RH estruturados e plataformas de e-learning.
  2. Micro e Pequenas Empresas (MPEs): Aqui, o investimento em treinamentos é zero, visto que ele acontece no dia a dia, de forma amadora e sem metodologia. Tirar um funcionário da operação por 4 horas para um curso representa uma perda imediata de faturamento que ela não consegue absorver, além do medo de “treinar o funcionário e ele ir para o concorrente”.

Identificando sintomas do gap de eficiência

Sintomas operacionais do dia a dia– Retrabalho constante;- Sobrecarga de um lado e ociosidade do outro;- Prazos perdidos (lead time alto).
Sintomas financeiros– Horas extras excessivas;- Aumento de custos sem aumento de receita;- Desperdício de insumos.
Sintomas humanos (equipe)– Absenteísmo e turnover;- Muits “incêndios” para resolver;- Equipe ocupada, mas não produtiva.
Sintomas culturais e tecnológicos– Subutilização de softwares;- Reuniões improdutivas;- Falta de indicadores (KPIs).

Como confirmar o diagnóstico?

Uma forma simples de validar se esses sintomas são graves é calcular o OEE (Efetividade Geral Global) ou perguntar à equipe: “Qual é a tarefa que mais toma o seu tempo e que você sente que não agrega valor?”

Após o diagnóstico, vem o tratamento

O treinamento é um dos principais alavancadores da produtividade, pois ataca diretamente a eficiência da mão de obra e a qualidade do que é produzido.

Segundo o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), empresas que investem em qualificação profissional registram um aumento médio de 10% a 15% na produtividade em curto prazo, e ainda garantem:

  • Redução de Erros e Desperdício
  • Adoção de Novas Tecnologias
  • Autonomia e Velocidade
  • Melhora do Clima Organizacional (Retenção)

Apesar dos benefícios, o Brasil investe pouco em treinamento comparado a países da OCDE. Muitas empresas veem a qualificação como custo e não como investimento, o que mantém a produtividade estagnada no patamar de 0,6% ao ano.

Soft Skills: o segredo da produtividade

As soft skills são habilidades comportamentais, sociais e emocionais que determinam como uma pessoa interage com os outros e como ela lida com as próprias tarefas e desafios. 

Diferente das hard skills (habilidades técnicas, como saber programar ou operar uma máquina), as soft skills não são fáceis de quantificar, mas são o que faz a “engrenagem” da empresa girar sem travar.

Comunicação e Relacionamento Escuta AtivaNão apenas ouvir, mas compreender o que o outro diz.
Comunicação AssertivaConseguir passar uma ideia de forma clara, sem rodeios ou agressividade.
EmpatiaEntender a perspectiva do colega ou do cliente para evitar conflitos.
Autogestão e EficiênciaGestão de tempoSaber priorizar o que é importante em vez de apenas o que é urgente.
Resolução de problemasA capacidade de ver um obstáculo e focar na solução, em vez de apenas reclamar.
ResiliênciaLidar com a pressão e com resultados negativos sem perder a produtividade.
Liderança e ColaboraçãoTrabalho em equipeSaber que o resultado do grupo é mais importante que o ego individual.
AdaptabilidadeA facilidade de mudar de rota quando o cenário ou o mercado pedem uma nova estratégia (essencial no Brasil, onde o cenário muda rápido).

Por que elas são o “segredo” da produtividade?

Segundo a Harvard University, 85% do sucesso profissional vem de soft skills bem desenvolvidas, enquanto apenas 15% vem das habilidades técnicas. 

Na prática, o treinamento em soft skills é o que transforma um grupo de pessoas em um time de alta performance e ainda traz resultados em:

  • Gestão do Tempo e Priorização
  • Redução do Estresse e Burnout
  • Autonomia e “Ownership” (Sentimento de Dono)

De acordo com o relatório Future of Jobs do Fórum Econômico Mundial, competências como resiliência, flexibilidade e agilidade (derivadas da autoliderança) estão entre as top 3 habilidades mais buscadas pelas empresas até 2027, justamente por garantirem a adaptabilidade produtiva em mercados instáveis.

A Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) correlaciona o investimento em soft skills com a retenção de talentos.

Conclusão: treinamentos curam e as soft skills impulsionam o tratamento

Capacitar a equipe sempre será o caminho mais certeiro na busca pela eficiência e redução de custos desnecessários dentro de uma empresa. 

O gap de eficiência deve ser identificado desde o início e o tratamento aplicado de forma fluída e contínua.

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